terça-feira, 1 de junho de 2010

Intolerâncias e Golpes de Estado

(*) Roberto Romano da Silva -

Em excelente programa televisivo sobre o Sexto Fórum Político da Unimed/Porto Alegre foi discutido por mim, Fernando Gabeira e outros convidados o tema de nossa forma estatal, incluindo os gritos de guerra que sobem dos vários partidos. Indiquei na ocasião a gravidade que reside nas mútuas acusações de golpe, vindas da esquerda e direita. Em data recente um general falou à Folha de São Paulo defendendo o regime ditatorial e apontando o viés autoritário das forças esquerdistas. Estas últimas, por sua vez, sempre que alguém critica os donos do poder brasileiro (incluindo velhos corruptos e oligarcas ditos “incomuns” pelo presidente da república) apontam o dedo para um suposto plano golpista da mídia. Os dois lados mostram profunda e ridícula intolerância, nada compatível com os postulados fundamentais do Estado democrático.
A tolerância é tema antigo em todos os setores da vida política, social, ideológica. Poderíamos discutir o assunto de maneira irônica: a intolerância (como a ideologia, a pretensão política, a tentativa de controlar as formas sociais), segundo a consciência de todo operador político ou religioso, é culpa dos outros. Ninguém admite ser intransigente e exclusivista nos embates públicos ou privados. Todos “apenas” defendem a ortodoxia, supostamente universal. É deprimente o espetáculo de um ente que deveria pensar, no instante em que ele descarrega sua carga de ódio, inveja e oportunismo tacanho na vida pública, envenenando o próprio ar que respira.

O convívio democrático exige que toda pessoa tenha o direito de pensar de acordo com a sua consciência. Ela não pode ser obrigada por ninguém a aceitar dogmas ou normas, sem delas ter a experiência translúcida que a persuada. Os castigos físicos, as promessas de bens ou felicidade, a entrega de poderes, nada justifica ir contra a própria consciência. Ninguém pode ou deve impor crenças ou atos ao próximo. No século anterior a consciência foi vilipendiada por sistemas políticos e foi tida como “pseudoproblema”, em filosofias como a de Louis Althusser. Ela também foi atenuada em Freud, Marx e Nietzsche, os mestres da suspeita moderna. Mas a sua vigência nunca será expulsa do mundo especulativo e prático.

Um lugar comum da filosofia política é o símile entre Estado e música. Na Renascença, o jurista protestante François Hotmann usa as imagens da harmonia para descrever o governo desejável. Ele cita o bom tempero musical do governo, segundo a República de Platão. Diz o filósofo: os que tocam instrumentos musicais ou cantam em várias pessoas, “seguem certa medida e ressoam um canto harmonioso, mistura de vozes diversas reunidas e concordes as quais, se chegam a se fragmentar um pouco apenas e sair do tom, ferem os ouvidos de quem as ouve. E, no entanto, aquela harmonia se baseia na perfeita consonância de vozes diferentes.” De modo idêntico, segue Hotmann, “no governo da coisa pública, composta de pessoas de alta, média e baixa qualidade, quando as diferentes partes se unem, se ligam e se incorporam, não existe harmonia tão musical, nem melodia melhor acordada. A concórdia procede da união, amor e mistura dos cidadãos do mesmo Estado, como se fosse uma forte corrente e rija, para garantir uma coisa pública que não dura muito tempo sem justiça”. Por falta de tolerância de católicos e protestantes, nos tempos de Hotmann, milhares morreram, desde o mais pobre cidadão aos reis.

Quando a política gera truculência – sons e fúria – chegam as armas e a quebra da ordem legal. Tolerância e democracia significam harmonia dos opostos (“palintonos harmonie”, segundo Heráclito de Efeso). O contrário só promete ataques físicos. Se as correntes políticas brasileiras insistirem nos rugidos selvagens, ameaçando destruir adversários como se inimigos fossem e não compatriotas, golpes de Estado serão inevitáveis. Tais atos extremos geram tiranias, violentam direitos, ignoram liberdades. Duas ditaduras (a de Vargas e a de 1964) bastam para mostrar que a intolerância política desgraça um povo. Que a campanha presidencial não traga uma nova ditadura, de esquerda ou direita, é o que todo democrata deve exigir. Agora, porque o futuro a nós pertence.

Por Ucho.info: a marca da notícia - de 30.05.2010

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